domingo, 17 de novembro de 2019

Sivuca

"Um olhar pra parede e uma prece pro céu chorar... sei lá...
(...)
Tanta água no coco e o riacho tão seco e só
O cercado é de toco e o arado é de pedra e pó
Um cavalo novilho e um filho que vai chegar
Sei lá...
Tem cabelo de milho o brilho do sol no olhar
Sei lá...
Se pudesse o sol chover só a metade do que chove no meu coração
Dava um lago pra beber e o chão virava neve de tanto algodão
Filho pra criar, crescer e o gosto de rever moringa na janela
Tanto milho pra colher de nunca mais se ver o fundo da panela"

Não sei exatamente quando Sinuca escreveu a canção "Cabelo de Milho", mas eu só a conheci muito tempo depois do seu lançamento, já no Século XXI. O tema é recorrente, mas a imagem criada pelos versos é original. Um filho num breve por vir, a incerteza da seca, talvez seja uma das mais precisas metáfora sobre a angústia e a pobreza. A verdade é que a vida muda quando outras vidas dependem da nossa. Não que haja nisso o que se arrepender, mas uma nova perspectiva.
Sempre penso nesse garoto com cabelo de milho e o brilho do sol no olhar... Talvez toda criança tenha esse brilho no olhar. Talvez, todo pai enxergue esse brilho no olhar do seu rebento, renovo, esperança, novo amanhecer. A vida que se perpetua, apesar do pesar.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Como devíamos ouvir ?

"The great majority of us cannot listen; we find ourselves compelled to evaluate, because listening is too dangerous. The first requirement is courage, and we do not always have it." - Carl Rogers.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Inspiratio

O primeiro livro lido em 2018, Inspiratio é uma obra singular, escrita pelo Osmar Ludovico. Já havia ouvido falar sobre o autor, mas como sempre, demoro a me aventurar numa nova estética literária, em parte devido a minha resistência natural, em parte, à lista imensa de livros pra ler. Desta vez resolvi ser mais ousado e parti logo para a leitura deste bem referenciado livro.

Com capítulos pequenos, que compõe um conjunto sobre um mesmo tema, Inspiratio nos traz reflexões profundas e me fez repensar muitos aspectos de minha vida.
Inspiratio é uma chamada à disciplina so simples, porém profundo, uma reflexão sobre o íntimo e secreto em contraste com os grandes espetáculos da fé, o triunfalismo e o superficial.

Leitura recomendada.

Armadilha, altares e credibilidade.

A questão estética é uma armadilha. A ilusão do Marketing, a nossa crise é de credibilidade. "As pessoas estão abrindo mão da própria identidade para se moldar aos esterótipos estabelecidos pela sociedade" - aparentar ser o que não é. Altares são memórias, são lembranças daquilo que Deus fez por nós.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A beleza da verdade e a verdade da beleza

Como podem as pessoas viver como se não tivesse espaço neste mundo bonito, sob este céu estrelado e imensurável?

Como é possível, em meio a essa natureza fascinante, persistir na alma do homem o sentimento de rancor, de vingança ou a paixão de aniquilar seus semelhantes? Parece que tudo de ruim no coração do homem deveria desaparecer em contato com a natureza - essa expressão da beleza e do bem.

Liev Tolstoi in Contos

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Sobre amizades

"Não creio que é possível amar a Deus e não ter amigos; mas em ter vínculos, afetos e amizades que evidenciam um real compromisso com Deus"

Osmar Luvodico in Inspiratio

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O passado que vive dentro de nós

Existe um passado que vive dentro de mim. Uma miragem de palavras, gestos e angústias. Uma miríade de momentos inesquecíveis. São tantos rostos, tantos sorrisos, tantas lágrimas e tantas despedidas que se fundem no calor intermitende desta fornalhada avermelhada, a memória, o consciente e o inconsequente. Ali são forjadas as armas da nossa autodefesa, o precioso escudo das angústias e das dores. A morte lenta que se destila na saudades de não mais viver, no segredo de não mais existir, de não mais haver. E meus amigos cadê ? Minhas alegrias e meus cansaços ? Eram paradas de ônibus, e o soar de alarmes que anunciavam o fim do intervalo (ou do recreio). Eram segredos que se contavam ao pé do ouvido, na certeza enganosa de não se propagarem. Era o desejo de ser grande, de ser outro alguém, da liberdade, e da responsabilidade inerente. Eram as tardes de domingo, em seu sofrego andamento. Eram os sonhos. Os sonhos abandonados pela ânsia de crescer, de ser livre. Somos livres ? Não se sabe ao certo como tudo começou, mas estão lá guardados, entre miragens e visões, entre delírios e angústias, o eterno brilho de uma mente com muitas memórias. Translúcidas, pungentes, vagas e melancólicas lembranças.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Antífona - Cruz e Sousa



Depois que tirei esta fotografia (cuja a qualidade aqui no blogger deixa a desejar, não sei o que acontece quando faço o upload das imagens que elas perdem tanta qualidade), lembrei-me de um trecho do poema Antífona, do Cruz e Sousa.


Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

P.s. Há tempos procuro uma edição de Missal e Broquéis para comprar e não encontro...

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Poemas domados


Continuo a descobri a obra do pernambucano João Cabral de Melo Neto:

Poema nenhum se autonomiza
no primeiro ditar-se, escoçado
nem no construí-lo, nem no passar-se
a limpo do datilografá-lo.

Um poema é o que há de mais instável
ele se multiplica e divide,
se pratica as quatro operações
enquanto em nós e de nós exite

Um poema é sempre como um câncer:
que química, cobalto, indivíduo

parou os pés deste potro solto?
Só o mumificá-lo, pô-lo em livro.

João Cabral de Melo Neto. Trecho do poema o que se diz a editor a propósito de poemas. Extraído de A escola das facas (1975-1980), editora alfaguara, 2008.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Eu, caçador de mim



Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da meta escura
Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Foi assim que escreveram Luiz Carlos Sá e Sergio Magrão. Acho que todos vivem a busca e expectativa de se encontrarem. Descobri quem realmente somos. Nesta multifacetada revelação que há em nós, nos deparamos com muitos eu's, de muitas habilidade e inabilidades, também. Quando penso nisso, sempre me lembro da multiforme graça de Deus, que se revela em cores, tamanhos, texturas, geometrias, sabores, tons e subtons, quialteras e colcheias, em prosa e verso, em canto e silêncio.

Eu, caçador de mim, "nestes dias tão estranhos", em que "a poeira se enconde pelos cantos", a gente se pergunta: o que somos ? o que queremos ser? Enquanto não houver espaço para a pergunta, dificilmente se encontrará a resposta. Enquanto se deixa a vida nos levar, nunca conheceremos este multifacetado eu. Por isso, endosso as palavras de Lenine: "


Não deixo a vida me levar
Levo o que vale do viver

Um sorriso pleno, um amor sereno
E tudo o que o tempo me der

A vida é pra se louvar
Pra se louvar a vida é

Vem o que vier, vale o que valer
Vale o que valer, vem o que vier

Um caminho raro, um coração claro
Por todo o tempo que houver

Leva, valer, louvar, haver
Viver se houver valor a vida

Não deixo a vida me levar
Quem leva a vida sou eu
Não deixo a vida me levar

Não deixo a vida me levar
Quem leva a vida sou eu